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O poeta morre. A obra nasce.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Estou demasiado ocupado a morrer
Já lá vão os tempos em que a vida era vazia,
agora estou demasiado ocupado a morrer.
Tenho andado por entre multidões de zombies a tentar rever-me nas suas caras pálidas indiferentes ao sofrimento de quem já não sofre.
(É, descobri que existe uma anestesia emocional vitalícia se nos submetermos demasiado tempo à dor.)
Mas essas caras respiram vida e transpiram a arte de fingir e, eu, só me revejo na morte,
nos olhos que sangram, nos pulsos que choram.
Já nem sei se sou um pássaro que rasteja por opção (com receio que as asas quebrem e eu caia), ou se sou um réptil que voa, usando a loucura e a consciência, elas personificando cada uma das minhas asas e, mais uma vez, com medo da queda. Medo de cair no vazio e ser apenas um desses zombies: preenchido, olhando em redor; vazio, olhando para dentro.
Temo ser amparado pela ignorância e que me sirva dela para comprar felicidade, que talvez fosse o melhor, visto que esta riqueza interior só me serve para gastar em merdas sem valor.
("- Mas os teus poemas são ouro." "- Sim, mas são só palavras e, palavras o vento leva." "- Então e se elas se tornarem livros?" "- O fogo queima-os." "- Mas o dinheiro compra-os e, quem sabe um dia elas se tornem eternas." "- Mas o dinheiro também só serve para alimentar este estômago, que nem chega a digerir os alimentos porque bebo demais e vomito tudo. E fazer dinheiro com a minha tristeza é um pouco paradoxal, é que escrever faz-me feliz, mas só escrevo sobre a minha tristeza, por agora quero ser um triste para puder escrevê-la, mas tenho de pensar noutra forma de felicidade.")
Foda-se, preciso mesmo é de arranjar amigos, que isto de falar sozinho é mais uma das evidências de que estou a ficar louco.
("- Não estás nada.")
Às vezes pergunto-me: porque é que sou um zombie solitário?
E não me venham com essa merda de que tenho falta de carácter, porque eu pelo menos não faço dos meus sentimentos, caridade, só para ser politicamente correcto e bem visto aos olhos da sociedade, eu quero mesmo é que o Mundo se foda, desde que estas paredes de casa não desabem.
Pronto, acho que já me respondi.
Às vezes acho-me um sábio.
Acho que é por isso que mantenho poucas relações, sou de poucas palavras... acho que a sabedoria não nos deixa ter muitas relações, não sei se é por ela ser egoísta ou se simplesmente a convivência com ela nos torna ignorantes no campo das relações afectivas. ("- Ou demasiado espertos.")
É, todos eles eram loucos e solitários; muito tempo para pensar é um convite ao reino da sabedoria na companhia da loucura.
O problema é que nem todos os loucos solitários são sábios, porque para o ser é preciso saber observar.
Eu acho que sei.
Eu acho que sou.
E como todos os sábios eram feitos de dúvidas,
se eu acho que sei e se eu acho que sou,
de certeza que sou um sábio e, só pelo facto de ter certeza que sou,
deixo de o ser, passando assim a ser um ignorante.
Mas assim, sou sábio quanto a mim, sei quem e o que sou,
e estou demasiado ocupado a morrer: respiro, inspiro-me, escrevo.
A poesia é um paradoxo: escrevo para não enlouquecer, mas escrevo até enlouquecer.
agora estou demasiado ocupado a morrer.
Tenho andado por entre multidões de zombies a tentar rever-me nas suas caras pálidas indiferentes ao sofrimento de quem já não sofre.
(É, descobri que existe uma anestesia emocional vitalícia se nos submetermos demasiado tempo à dor.)
Mas essas caras respiram vida e transpiram a arte de fingir e, eu, só me revejo na morte,
nos olhos que sangram, nos pulsos que choram.
Já nem sei se sou um pássaro que rasteja por opção (com receio que as asas quebrem e eu caia), ou se sou um réptil que voa, usando a loucura e a consciência, elas personificando cada uma das minhas asas e, mais uma vez, com medo da queda. Medo de cair no vazio e ser apenas um desses zombies: preenchido, olhando em redor; vazio, olhando para dentro.
Temo ser amparado pela ignorância e que me sirva dela para comprar felicidade, que talvez fosse o melhor, visto que esta riqueza interior só me serve para gastar em merdas sem valor.
("- Mas os teus poemas são ouro." "- Sim, mas são só palavras e, palavras o vento leva." "- Então e se elas se tornarem livros?" "- O fogo queima-os." "- Mas o dinheiro compra-os e, quem sabe um dia elas se tornem eternas." "- Mas o dinheiro também só serve para alimentar este estômago, que nem chega a digerir os alimentos porque bebo demais e vomito tudo. E fazer dinheiro com a minha tristeza é um pouco paradoxal, é que escrever faz-me feliz, mas só escrevo sobre a minha tristeza, por agora quero ser um triste para puder escrevê-la, mas tenho de pensar noutra forma de felicidade.")
Foda-se, preciso mesmo é de arranjar amigos, que isto de falar sozinho é mais uma das evidências de que estou a ficar louco.
("- Não estás nada.")
Às vezes pergunto-me: porque é que sou um zombie solitário?
E não me venham com essa merda de que tenho falta de carácter, porque eu pelo menos não faço dos meus sentimentos, caridade, só para ser politicamente correcto e bem visto aos olhos da sociedade, eu quero mesmo é que o Mundo se foda, desde que estas paredes de casa não desabem.
Pronto, acho que já me respondi.
Às vezes acho-me um sábio.
Acho que é por isso que mantenho poucas relações, sou de poucas palavras... acho que a sabedoria não nos deixa ter muitas relações, não sei se é por ela ser egoísta ou se simplesmente a convivência com ela nos torna ignorantes no campo das relações afectivas. ("- Ou demasiado espertos.")
É, todos eles eram loucos e solitários; muito tempo para pensar é um convite ao reino da sabedoria na companhia da loucura.
O problema é que nem todos os loucos solitários são sábios, porque para o ser é preciso saber observar.
Eu acho que sei.
Eu acho que sou.
E como todos os sábios eram feitos de dúvidas,
se eu acho que sei e se eu acho que sou,
de certeza que sou um sábio e, só pelo facto de ter certeza que sou,
deixo de o ser, passando assim a ser um ignorante.
Mas assim, sou sábio quanto a mim, sei quem e o que sou,
e estou demasiado ocupado a morrer: respiro, inspiro-me, escrevo.
A poesia é um paradoxo: escrevo para não enlouquecer, mas escrevo até enlouquecer.
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